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(Foto de Riichi Yokomitsu na contracapa da coletânea)

Primeira leitura “solo” de um livro em japonês, a maioria dos livros nessa língua que li antes já tinham sido lidos em traduções, então, eu sempre tinha uma idéia geral do enredo. O autor chama-se Riichi Yokomitsu (1898-1947), eu nunca ouvi falar nele por aqui e há bem poucas traduções de suas obras, quase nada, as informações sobre o autor também são sumárias na internet.

O título da história poderia ser traduzido como “Jardim adormecido”, ele é constituído de dois kanjis, o de dormir (寝) e o de jardim/parque (園),  os dois juntos não formam uma palavra única (pelo menos não achei nos dicionários que consultei), por isso, traduzi assim.

A história se passa na época da Depressão de 30 (pensando na conjuntura econômica atual, não pude deixar de achar a coincidência irônica) e é sobre vários triângulos, quase quadriláteros, amorosos envolvendo várias pessoas de uma classe comercial abastada. Nanae é casada com Niwa, mas ama Ha, um amigo da família. Nanae também é amada por Taka, um jovem estudante que, como bom Don Juan, não deixa de “tirar uma casquinha” roubando beijos de todas as personagens femininas que cruzam seu caminho, entre elas, Aiko, parente de Nanae. Aiko, por sua vez, tem uma queda por Niwa, marido de Nanae.

As paixões e flertes não vão a lugar algum devido às convenções sociais e também porque Ha, que poderia tentar fazer com que Nanae se divorciasse, está em sérios apuros financeiros e perde toda a sua fortuna com a Depressão. Outro fator que complica a situção é o fato de Nanae acertar um tiro acidental em Niwa durante uma caçada a javalis promovida pelo clube de tiro de que fazem parte. A culpa faz com que ela renuncie a se aproximar de Ha.

Os personagens são infelizes e suas vidas não parecem ir para lugar algum, eles estão mesmo “anestesiados” em um “Jardim adormecido”.

Das coisas assistidas

Tenho gravado e assistido a alguns clássicos esses dias. Ontem vi “Taxi driver” com o De Niro bem jovem, em ótima forma, não lembra muito o ator hoje (time is REALLY a bitch!). A Jodie Foster como a prostituta de 12 anos também está deslumbrante.

Laranja Mecânica é o próximo da lista.

Entre os filmes mais recentes, vi A vida dos outros (Das Leben der Anderen) na HBO, muito bom filme, muito bom.

Algum tempo atrás também vi um filme japonês sobre os Kamikazes japoneses na II Guerra cujo roteiro foi escrito pelo governador de Tóquio.  O título poderia ser traduzido como “Vou à morte por vocês” (Em inglês, foi traduzido como For those we love).  O autor é nacionalista, mas o filme desperta os sentimentos pacifistas dos espectadores, além de uma revolta pelo desperdício de tantas vidas de adolescentes. Um pouco longo, mas é um bom filme sobre a amizade e  os sentimentos dos pilotos que se preparavam para morrer.

Ainda sobre coisas assistidas, na semana passada vi uma reportagem do Thalassa (programa que passa na TV5) sobre o Haiti. Que aperto no coração ver os moradores de uma grande favela à beira-mar mexendo grandes tachos de lama misturada com manteiga e sal com as mãos! Ela depois é moldada em forma de “biscoitos” e seca ao sol. Os biscoitos são comprados pelas pessoas mais pobres e dá uma dor enorme ver as crianças comendo aquilo e dizendo que é gostoso. A água mais limpa a que alguns têm acesso é a do esgoto da prefeitura. E o pior é não haver perspectiva de que as coisas melhorem.

(Life IS a bitch!)

Notas de final de ano

Final de ano não é a minha época do ano, defitivamente. Ruas congestionadas e gente andando de um lado para o outro como galinhas degoladas, tudo para comprar presentes,  roupas para usar no Natal, no Ano Novo na praia, sem falar nos comes e bebes…

Eu abdico de tudo isso, mas adoro a calmaria das cidades entre e pós-festas, muita gente some e aqueles que ficam entram em um estado letárgico, como se estivessem digerindo todas as ceias que consumiram.

Boa Sorte para todos!

img_03652Boa sorte para todos os que farão a prova amanhã!

がんばりましょうね!

Tardes empoeiradas

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(Pintura: Edouard Manet)

Todas as tardes empoeiradas
são parentes das tardes da minha infância.
Via a camada de pó pairando
sobre a estrada e ficava triste,
talvez porque fosse final de dia,
talvez porque não chovesse
e as coisas me olhassem com sede:
casas, árvores, postes, escola.
A chuva caía dentro de mim,
mas a terra continuava seca do lado de fora.

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Devagar, bem devagar, li uma tradução alemã do livro de lendas e fábulas da Selma Lagerlöf, uma escritora sueca e a primeira mulher a ganhar o Nobel de literatura em 1909. Suas histórias são povoadas por sonhos, premonições, goblins, espíritos e outros seres sobrenaturais, muita coisa inspirada nas histórias e lendas que ouviu durante sua infância.

Sempre tive uma grande paixão por lendas, contos, fábulas e mitos e era natural que gostasse deste livro, claro que as histórias não são doces e nem sempre têm finais felizes, ao contrário, muitas vezes elas se assemelham mais a pesadelos, como a história do proprietário de terras que perde uma aposta feita com o espírito que mora em sua casa ou a do troll que troca o bebê de uma mulher por seu próprio filho. Outras histórias tratam de injustiças reparadas, o cristianismo contra o paganismo, etc.

Fatos da semana

Fui assistir à aula de pós na antropologia (só para sentir o ambiente, entendem?). Era um seminário sobre algum texto do Roberto Freire (não tenho certeza, peguei o bonde andando, ok?). Lá pelas tantas um dos alunos, oriundo da medicina comentou/perguntou (não ficou claro), se as formas de colonização feitas pela França, Inglaterra, Portugal, Espanha, etc., não seriam diferentes e se elas não teriam influenciado a forma como os colonizadores se relacionavam com as outras raças e se isso não se refletiria hoje, por exemplo, no maior grau de miscigenação entre as diferentes raças como ocorreria no Brasil, colonizado por portugueses católicos que eram estimulados a se relacionarem com as negras e índias, enquanto isso não teria ocorrido nos EUA onde a maior parte dos colonos ia com as famílias e seguia o protestantismo. Esperei uma discussão, mas vi apenas os antropólogos gritarem “Ideologia! Ideologia!”.

A “hipercondríaca” foi tomar o reforço da vacina dupla (ela deve ser tomada a cada 10 anos e  serve para prevenir contra a difteria e o tétano, tomei mais pelo tétano porque me corto em todos os lugares) no posto de saúde. Peguei uma senha e fiquei esperando alguém aparecer na salinha de vacinas. Sorte que uma agente de saúde que arrumava uns papéis por perto ficou com pena de uma mulher com um bebê que também esperava e foi chamar alguém para nos atender senão estaria ali até agora. Uma das vacinas mais doídas que já tomei.

Parei no semáforo porque o farol abriu e um velhinho resolveu não passar e queria que eu atravessasse a rua, apontei o sinal verde e gesticulei pedindo que ele passasse, pois sua gentileza não era compartilhada pelos outros motoristas que buzinavam e passavam pelo outro lado. Atravessei só quando o sinal fechou novamente. Acho que ficamos os dois frustrados, eu por ter que ficar ali gesticulando e ele por eu não ter passado…

Richard Sennett é um professor de sociologia da Universidade de Nova Iorque, meu primeiro contato com sua obra se deu quando escrevia meu mestrado, seu O Declínio do homem público foi muito útil para minha pesquisa e me deu uma idéia de como era a Europa por volta do século XVIII, período em que as cidades começavam a se modernizar e a se desenvolver com a criação de espaços públicos onde as pessoas das mais diversas classes e condições sociais podiam interagir com liberdade, sem precisar dizer quem eram ou de onde vinham. Os cafés, as praças, os teatros, etc., teriam mudado a forma como as pessoas avaliavam umas às outras, pois eram ambientes que qualquer um podia frequentar e onde cada um podia “reinventar” a si mesmo, ao contrário dos ambientes da corte, onde todos deviam obedecer regras de etiqueta e de hierarquia.

Os anos se passaram e reencontrei Sennett há pouco, li The culture of the New Capitalism e The corrosion of character, dois longos ensaios que abordam praticamente o mesmo tema: as exigências do capitalismo e como elas afetam a vida das pessoas. Para quem trabalha em grandes empresas hoje em dia, tudo o que Sennett diz talvez não seja nenhuma novidade. Ele escreve sobre como as idéias de flexibilidade, ausência de rotina e risco, por exemplo, apesar de suas conotações positivas, acabam por gerar ansiedade.

Trabalhar com horários “flexíveis”, ser parte de grupos que duram apenas o período de elaboração de um projeto, ter que provar a si mesmo a cada nova etapa, segundo Sennett, a princípio, seriam noções positivas, mas quando essas situações se repetem ao longo de toda a vida ativa, o que as pessoas sentem é que não possuem apoios, não podem repousar e que a narrativa de suas suas histórias é feita de recortes e não constituem uma totalidade coerente. Não é possível estabelecer laços de amizade no emprego porque os grupos se desfazem rapidamente e, como todos praticamente “competem” entre si, não é possível confiar em ninguém. Como os empregos são flexíveis e as mudanças são constantes, também não há como estabelecer uma identificação com o trabalho, não haveria mais carreiras no sentido pleno da palavra. O que se valoriza é o potencial, o momento, não a história pessoal e as glórias passadas; a atitude positiva, o responder “sim” a tudo. No passado, a hierarquia formava uma pirâmide, mas cada um sabia onde estava e quem mandava, já o novo modelo seria parecido com um disco rígido, com um centro indefinido de onde partem ordens.

Apesar de Sennett afirmar que as condições de trabalho do passado não eram as melhores, ele parece saudosista quando diz que a ansiedade era menor e que ao menos as situações tinham contornos mais definidos do que hoje. Apesar da rotina, ainda havia a vida em comunidade e o consolo de pensar que  o esforço servia para melhorar a vida dos filhos. Hoje, no entanto, mesmo quem se formou e encontrou um emprego não tem garantias e precisa se aprimorar todos os dias para não ficar para trás, o que gera um bando de pessoas frustradas e insatisfeitas consigo mesmas.

Em suma, o novo capitalismo favore quem é jovem, ambicioso e com boa formação, mas para quem chega à meia-idade, ele é extremamente cruel.

Nostalgias

Sou uma pessoa cheia de nostalgias, nostalgia não de coisas que vivi, mas das coisas que imaginei. Por exemplo, das histórias sobre a época das grandes navegações e dos desbravadores de continentes inexplorados. Sinto falta de mundos inexplorados, de povos estranhos com rituais misteriosos. O mundo está muito chato, “marketizado”, deglutido e regurgitado.

Outro dia assisti a um pedaço de um documentário sobre um povoado nos confins da India, perto da fronteira com o Nepal e senti inveja daquele lugar sem TV, sem luz, sem internet, onde a vida é regulada pelas estações e condições climáticas. Ficaria contente se vivesse ali? Acho que não, em pouco tempo sentiria falta daquilo que tenho deste lado do globo. Como disse, minha nostalgia é das coisas imaginadas…

Parcimônia

Outro dia li um artigo na revista Time no qual o autor dizia que antigamente ser econômico, ir lá no banco colocar um pouco de dinheiro na conta todo o mês, era considerado uma virtude, mas que nos últimos tempos isso passou a ser visto como uma atitude com aspectos negativos, pois a sociedade hoje em dia valoriza a idéia de que é preciso aproveitar o momento, de que não vale a pena adiar os prazeres. Assim, as pessoas vivem no limite de vários cartões para ter um crédito que realmente não são capazes de bancar apenas para poderem gastar em coisas que, se pensassem bem, não vão mudar tanto assim as suas vidas.  Acho que a crise veio em boa hora…

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