(Texto publicado no jornal voltado para a comunidade nikkei no qual colaboro)
Ir ao Japão provavelmente é algo que já passou ao menos uma vez pela cabeça dos descendentes de japoneses. Realizei esse desejo há quase dez anos atrás e foi mesmo uma experiência especial.
Fui com uma bolsa de estudos do governo japonês e passei um mês no país. Visitei Tóquio, Osaka, Nara, Kyoto e Hiroshima. Também conheci a família de meu pai e essa talvez tenha sido a experiência mais estranha da viagem: encontrar uma avó e tios que conhecia apenas por fotos. Ao contrário de algumas culturas, não fui recebida com abraços efusivos e beijinhos no rosto. Não, japoneses não fazem isso. Eu mesma não gosto de fazer isso e até hoje fico sem jeito quando alguém que mal conheço se aproxima para me dar um abraço.
Meu pai trabalhava no Japão na época, em um dia de folga, ele me encontrou em Tóquio e partimos de trem na direção da província vizinha de Chiba. Depois de uma baldeação e vários minutos em um trem que atravessava montanhas verdes e parava em estações onde não havia ninguém, chegamos ao nosso destino. Era um pequeno vilarejo na península. Ninguém nos esperava, fizemos aquela viagem por impulso e todos estavam trabalhando. Pegamos um táxi e chegamos em uma casa bonita e isolada no campo.
Minha avó paterna estendia roupas no varal em um meio-dia tórrido de verão. Era uma velhinha curvada, bem idosa e com um ligeiro problema de audição.
Conversamos pouco, não tínhamos assunto. Eu estava lá, ela estava lá e isso bastava. Meus tios voltaram do trabalho, uma prima que trabalhava em Tóquio e outros tios que moravam em outro lugar vieram para o jantar. Eles conversaram com meu pai, trocaram algumas palavras comigo e foi tudo.
Dormimos sobre o tatami da sala e voltamos para Tóquio no dia seguinte. Meu pai voltou para a província em que trabalhava e eu fiquei relembrando fragmentos daquela visita insólita.