(Texto publicado no jornal voltado para a comunidade nikkei no qual colaboro)
Um dos programas que mais gosto de assistir na NHK é o “Chiisana Tabi”, algo como “Pequenas viagens”, cada episódio de cerca de trinta minutos se passa em um ponto diferente no arquipélago japonês e a idéia é acentuar um caráter típico do lugar. Geralmente são vilarejos pequenos com poucos habitantes, um bairro conhecido por alguma característica particular ou mesmo uma única rua.
A reportagem mostra imagens bonitas e acompanha o dia-a-dia de algumas pessoas que vivem por ali: aquele senhor que se lembra de como o bairro era há cinquenta anos atrás, o garoto que vai deixar seu vilarejo para ir estudar na cidade ou a mulher que perdeu o marido e lembra-se dele ao olhar para os pés de cerejeira de sua rua.
São histórias tocantes, humanas. Cresci com a idéia de que os japoneses não mostram seus sentimentos, não choram em público, mas, ou as coisas mudaram, ou estive enganada por muito tempo, pois sempre vejo velhinhos ficarem com olhos marejados enquanto contam as histórias do passado e lembram com carinho dos sacrifícios que seus pais fizeram para criá-los, ou quando falam sobre filhos que perderam ao longo da vida.
Claro que há um outro lado do Japão, aquele mais cinza, no qual os idosos vivem sozinhos e abandonados pela família, muitos jovens não vêem perspectivas para o futuro, enquanto outros dedicam-se a um consumismo desenfreado. O programa, no entanto, procura enfatizar os valores da comunidade, o calor dos relacionamentos, as pequenas coisas que , apesar de insignificantes, dão um quê de especial ao cotidiano.
Sempre que um episódio termina, deixa um sentimento gostoso e a vontade de conhecer o lugar mostrado. Mesmo que a realidade geral não seja aquela, não deixa de ser um bom programa.