CEMITÉRIO DAS PALAVRAS

Nonsense

 

Você abaixou os talheres,
voltou os olhos para a janela,
deparou-se com as cortinas um pouco sujas
e procurou ver além dos telhados,
além das luzes sobre a alameda.
Você ouvia música e suspirava,
ofereceu-me seu anseio
para figurar em um quadro.
Eu o emoldurei e coloquei-o entre os cravos
de um jardim de conto de fadas.

 

Cartas orientais

 

Meu amigo indiano costumava escrever sobre o seu país,
enviava cartões postais do Taj Mahal,
marcadores de livro feitos de sândalo perfumado e anéis de prata.
Ele me contava sobre sua vida,
descrevia celebrações nas quais as pessoas
se sujavam com pós coloridos em meio a gritos e risadas.
Meu amigo indiano gostava de música ocidental
e se apaixonou pela voz de Marisa Monte.
Eu adoraria navegar pelo Golfo de Bengala,
ele queria ver a Baía de Guanabara,
por uma questão geográfica, nunca nos encontramos,
devido à instabilidade das relações humanas, deixamos de trocar cartas.

 

Café

 

O café na xícara é
escuro como a noite lá fora.
Não ter que sair agora,
não ter que me curvar às horas,
seria tão bom!
Mas sem trabalho
não haveria dentro ou fora,
seria tudo escuridão.
Sem trabalho, tudo se dissolveria,
teto, parede, chão.
A vida não para.
É preciso mandar o líquido morno pra dentro
e ser engolido pela madrugada
do outro lado da porta.

 

Natureza

 

Senti a chuva lavar meu rosto,
provei o frescor do capim novo,
cortei a pele e gritei como se não
houvesse mais ninguém no mundo.
Pisei na lama com os pés descalços,
comi com as mãos encardidas pelo barro.
Aprendi tarde a usar garfo e faca,
sou uma selvagem domesticada à força.

 

 

Noite

 

Me tome nos braços
Como se eu fosse uma criança triste
Que observa as estrelas distantes.

Ou me envolva em seu manto
Como faz com esses jovens
Que a encaram através das janelas
De incontáveis ônibus,
Por inúmeras ruas vazias.

Depois, feche meus olhos com doçura
E, em silêncio, como sempre,
Me receba com um longo beijo.

Imitação de Drummond

 

Vou para Itabira
ver um homem ir devagar,
um cachorro ir devagar,
um boi ir devagar.
Vou para Itabira
morar em uma casa entre bananeiras
e cantar entre as laranjeiras
do pomar.

Vou para Itabira,
estou farta da vida corrida,
vou para Itabira divagar.

 

 

Algo alegre

 

A mulher varre a calçada
com sua vassoura de piaçava
alheia a tudo. Concentrada
em juntar as folhas do jacarandá.
As folhas olham achando graça
daquela mulher tão alta
fazendo esforço para amontoá-las
e fogem dando gargalhadas.

Sua lembrança

 

Gostávamos de coisas simples,
Respirávamos o mesmo ar,
Bebíamos das mesmas fontes.
Trazíamos sonhos sem asas
Junto a nossos corpos,
Nada cobria nossas frontes.
Nunca trocamos um primeiro beijo,
Nunca houve nenhum toque.
Onde quer que esteja,
Meu amor de outrora,
Meu amor de sempre,
Espero que ainda conserve
A mesma natureza incorruptível,
O sorriso dos puros.
Perdi minha inocência
Caminhando entre loucos,
Perseguindo objetivos estúpidos.
Sua lembrança me dá coragem,
saber que está neste mundo,
Torna-me muito mais forte.

 

 

Sede

 

Estudei, li alguns clássicos,
aprendi algumas línguas,
mas isso tudo nunca foi suficiente.
Há sempre essa falta, essa ânsia
por conhecer inexplicável.
Minha busca é quase religiosa,
mas não envolve templos ou seitas místicas.
A próxima pessoa com quem cruzar na rua
pode ensinar-me algo que não sabia.

Do inusitado

 

Um flamboyant sob a chuva,
a visão de uma blusa amarela
em meio aos transeuntes.
O inusitado provocador,
presente em todos os cantos.
Tão simples e, ao mesmo tempo, tão raro,
pois exige um coração pronto,
uma alma aberta, ainda em flor,
não este senso prático das coisas.

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