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Das coisas que dão prazer

Gosto desta época do ano, um vento diferente começa a soprar, o calor começa a diminuir aos poucos e é como se eu fosse um animal em antecipação por algo… Um cachorro esperando os restos da mesa do almoço… Não sei explicar, mas gosto dessa fase de mudança de estação. O mais estranho é que quando isso acontece, sinto uma vontade louca de reler Proust, puxa, como sinto falta disso! E em termos de música, gosto de ouvir Leonard Cohen. Outro dia assisti a um documentário que passou no Telecine sobre ele, chamava-se I’m your man, título de uma de suas canções. Na verdade era uma espécie de entrevista mesclada com músicas interpretadas por outros cantores. Nele, Leonard conta que ele escreveu Chelsea Hotel pensando em Janis Joplin, divertido, não? As letras de suas canções são muito bonitas.

Abaixo um trecho do documentário,  Chelsea Hotel interpretada por Rufus Wainwright:

Chelsea hotel

I remember you well in the Chelsea Hotel,
you were talking so brave and so sweet,
giving me head on the unmade bed,
while the limousines wait in the street.
Those were the reasons and that was New York,
we were running for the money and the flesh.
And that was called love for the workers in song
probably still is for those of them left.

Ah but you got away, didn’t you babe,
you just turned your back on the crowd,
you got away, I never once heard you say,
I need you, I don’t need you,
I need you, I don’t need you
and all of that jiving around.

I remember you well in the Chelsea Hotel
you were famous, your heart was a legend.
You told me again you preferred handsome men
but for me you would make an exception.
And clenching your fist for the ones like us
who are oppressed by the figures of beauty,
you fixed yourself, you said, “Well never mind,
we are ugly but we have the music.”

And then you got away, didn’t you babe…

I don’t mean to suggest that I loved you the best,
I can’t keep track of each fallen robin.
I remember you well in the Chelsea Hotel,
that’s all, I don’t even think of you that often.

Mercado

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(pintura: Rose la rouge de Toulouse-Lautrec)

Vendi meus sonhos a baixo preço
porque era preciso viver
e mantê-los saía muito caro.
Se os tivesse vendido mais cedo
ou se os tivesse mantido mais tempo,
eles teriam mais valor no mercado.

Maldade

Depois de observar as medidas femininas nos desfiles das escolas de samba, acho que Lula cumpriu o que prometeu, o país comeu muito mais em 2008.

Fábula

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(Desenho de Beatrix Potter)

Que desgraça sofrer dessa vagabundagem da alma,
ela se desloca para o corpo e para a vontade
e faz com que todos me olhem com reprovação.
Não tenho um ponto de partida ou de chegada,
sou a tartaruga daquela fábula
em um mundo cheio de coelhos.
Vou no meu ritmo, vou com calma,
não me importo se não chegar primeiro.

Dois bons filmes

Assisti ao “O leitor” esses dias e gostei da história, começa como o relacionamento entre um adolescente e uma mulher mais velha e termina de uma forma diferente, abordando os sentimentos dos alemães sobre a segunda guerra, sobre o papel que desempenharam e, de certa forma, a culpa que o personagem principal carrega durante toda a sua vida por algo que não fez reflete isso.

Também vi “O lutador“, achei que o Sean Penn estava ótimo como o ativista homossexual em “Milk“, mas Mikey Rourke está fantástico como um lutador do estilo “gigantes do ringue” em final de carreira. O filme é sobre os, por assim dizer, “fodidos pela vida” (e por algumas escolhas não muito boas), não tinha grandes expectativas quando comecei a assisti-lo, mas gostei, gostei mesmo.

Paisagem estival

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(Pintura: Johan Axel Gustav Acke, Water mirror)

Você sentava-se sobre uma pedra
à beira d’água e olhava para seus próprios pés bronzeados.
Mesmo que nossos corpos mudem ou nossa paixão arrefeça,
eu o verei sempre como aquela estátua ao sol,
você é minha paisagem estival, minha imagem de pureza.

Mais coisas assistidas

Tenho visto vários filmes nestas férias. Durante as festas assistimos a 8 episódios de Berlin Alexanderplatz do Fassbinder, foi meu presente de Natal para o O., ainda faltam 4 episódios. O filme (ou longa longuíssimo) conta a história de Franz Biberkopf,  um homem que sai da prisão após cumprir uma pena de 4 anos por ter matado sua namorada.  Vemos Berlim no período entre guerras, a pobreza geral, a inflação galopante, o desemprego, e Franz procurando reconstruir sua vida, levando tombos, enchendo a cara (às vezes dá vontade de chamá-lo de Franz “Bierkopf”). Ele faz um tipo de filósofo de boteco atormentado e por vezes bonachão, apesar de sua situação precária, sempre há mulheres por perto dispostas a fazer tudo por ele. O filme é longo, o clima meio sombrio, e, aqui e lá, vemos sugestões de que Hitler está por perto…

Quero terminar de ver o resto, espero que  O.  se anime.

Dentre os filmes mais recentes, vi WALL.E que merecidamente ganhou o globo de ouro de melhor animação ontem. A história do robozinho solitário e carente em uma Terra coberta de lixo é muito bem feita, apesar de poucos diálogos, ela é comovente.

Também vi Milk, o Sean Penn está ótimo como Harvey Milk, o ativista e político que defende os direitos dos homossexuais em São Francisco. Só não me conformo com o fato do cara ter sido assassinado por um colega político a troco de nada.

Por fim, vi Vicky Cristina Barcelona do Woody Allen. Dos três últimos filmes dele é, de longe, o melhor. Realmente ótimo. O Javier Bardem está muito bem como o pintor espanhol que encanta duas turistas americanas (Scarlett Johansson e Rebecca Hall), ele se posta na frente das duas em um restaurante e as convida para ir a uma cidade do norte da Espanha com ele, sexo “inclusive“. Ele diz exatamente o que pretende para cada uma delas e não mente em momento algum. Seduzir é mesmo uma arte, pena que muita gente a confunda com sacanagem. Outro personagem magnífico do filme é a cidade de Barcelona, você sai do filme com vontade de ir lá tomar um porre de lugares pitorescos, Gaudí, restaurantes românticos, barzinhos simpáticos…

A música inicial, de Giulia y los Tellarini, é muito gostosa de se ouvir.

Entre limoeiros

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Lemon Tree” é um filme dirigido por um diretor israelense que nos faz refletir sobre o beco sem saída em que a questão entre israelenses e palestinos se encontra atualmente, o melhor é que ele faz isso com sensibilidade, mostrando como a política, religião e preconceitos afetam a vida de pessoas comuns.

A história é sobre uma viúva palestina que tem uma plantação de limoeiros, tudo vai bem até que o ministro da defesa de Israel muda-se para uma casa que fica bem na frente de seus limoeiros e exatamente na fronteira com o território palestino. Logo a viúva recebe uma carta declarando que os limoeiros constituem uma ameaça para a segurança, pois terroristas podem se esconder entre eles para atacar Israel, e que, portanto, eles devem ser destruídos.

Apesar da viúva ter direito a uma indenização, ela se recusa a destruir a plantação que herdou de seu pai e decide entrar na justiça contra o ministro. Seu caso recebe uma grande cobertura da mídia e torna-se um grande problema para o ministro da defesa.

Mas o mais interessante é observar as duas protagonistas do filme, a viúva palestina e a mulher do ministro. Apesar de praticamente não trocarem nenhuma palavra, mais do que animosidade, ambas parecem sentir interesse uma pela outra, afinal, antes de estarem em lados contrários da fronteira, as duas são mulheres, mães e infelizes. A mulher do ministro é inteligente e educada, mas seu marido não a valoriza e tem um caso com sua secretária. A viúva, por sua vez, apaixona-se pelo jovem advogado que contrata e passa a ser assediada pelos “defensores da moral” de sua vila que vira e mexe batem em sua porta para perguntar o que está acontecendo e lembrá-la de que ela deve respeito ao seu falecido marido.

A decisão final da Corte sobre o caso ilustra bem o impasse que existe no relacionamento entre judeus e palestinos.

Mesmas estradas

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(Pintura: Camille Pissarro, Eragny)

Os pés de cana e laranjais formam a paisagem do lado de fora,
ela passa pela janela do ônibus deixando imagens nubladas.
Gostava destas viagens ao interior, via os pastos e as plantações
com olhos e coração, mas hoje não.
Todo o afeto por esses objetos foi gasto nas várias
passagens pelas mesmas estradas.

Sinais de alerta?

Ano quase no final. Todos os jornais estrangeiros falam da crise econômica, gente perdendo empregos e em situação precária. Espero que os poderes proféticos de nosso presidente estejam em dia e que a crise aqui chegue apenas como uma “marola” que morre na praia, mas  é difícil acreditar nisso.

De qualquer forma, a maioria da população está procurando ignorar todos os sinais de perigo,  aproveita a aparente calmaria das águas e caminha pela grande extensão de areia da praia…

Onda? Onde?

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